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"Sempre tive inclinação para as causas humanitárias"

Casa Amarela ou Tenda do Encontro. O nome pouco importa, porque por detrás desta instituição está um trabalho relevante, solidário, sob o olhar atento da Segurança Social e, por vezes, longe do dos progenitores. O projecto é liderado pelo padre Bernardino, homem atento às necessidades de um grupo de três dezenas de crianças desfavorecidas e em risco, que ali vive.

A história de cada criança é diferente, mas o final é idêntico: a integração num local onde estas possam crescer com a tranquilidade que qualquer criança merece ou tem direito.

E porque a solidariedade é o princípio da justiça e da fraternidade, a Tenda do Encontro de Sermonde (Gaia) desenvolve há sete anos um trabalho notável, não só em Portugal, mas também para países como Angola, através da formação de técnicos superiores (Lar de Estudantes de Angola no Porto) e com o envio de contentores com materiais vários de primeira necessidade.

Em tempos prestou serviço também em Moçambique, América Latina e Timor. Além disso, a instituição tenta dar resposta a todas as situações de apelo, um trabalho que já recebeu o reconhecimento pessoal e a visita de Ramos Horta, presidente de Timor.

Miúdos com histórias tristes, deixados na Tenda do Encontro muitas vezes pelos próprios pais. O pároco partilhou com o Ciberjunta as alegrias que estes jovens trazem à sua vida de humanista e as tristezas de os ver, por vezes, serem devolvidos pelo tribunal aos pais sem condições para os criar.

Como é que surgiu a sua vocação para as questões religiosas?
Sou de uma família de oito irmãos. Estudei para a profissão que sempre quis exercer, felizmente. A minha mãe pôs-nos todos a estudar. Um dos meus irmãos é arcebispo é Angola, outro é padre em Padornelo e eu segui o ensino do 1.º Ciclo. Pus de lado a Igreja ainda quando estava na minha aldeia, no Marco de Canaveses, mas retomei quando ingressei na Escola do Magistério Primário, no Porto, porque encontrei professores de catequese de muita qualidade e uma prima, começando nessa altura a minha vocação cristã. Sempre tive muita inclinação para as questões humanitárias, uma marca que a minha mãe me deu, uma pessoa com uma formação humana extraordinária. Terminei o curso de 1965/66 e comecei a dar aulas e frequentar o seminário, em Teologia. Dava aulas no Barredo, na zona ribeirinha do Porto, e afeiçoei-me muito àquelas crianças da rua, a maior parte filhos de prostitutas ou vendedores ambulantes.

A experiência com aqueles miúdos foi o seu baptismo.
Sim. Foi a minha grande paixão. Guardo excelentes recordações. A experiência foi muito trabalhosa, a minha intervenção no local foi gratificante, porque despertou em mim a grande paixão pelo mundo das crianças e dos pobres. Dediquei-me ao trabalho com alguns movimentos para os mais desfavorecidos, inclusive com os sem abrigo do Porto e com os jovens da zona pobre de Campanhã. Trabalhei algum tempo com o Ninho, uma associação de recuperação de prostitutas de Lisboa, que pretendia fundar uma delegacia no Porto, projecto que acabou por não ter sucesso, devido a burocracias, mas que tinha pernas para andar. A meu ver, um dos melhores projectos em Portugal nessa área.

Conseguiram retirar das ruas essas mulheres em dificuldade?
Sim, duas foram para Setúbal, para as Irmãs de Calcutá, outras para Lisboa e algumas conseguimos retirá-las das áreas dos companheiros. Quando terminei o curso, pedi ao bispo para me colocar na paróquia de Miragaia, pedido que me foi concedido. Juntamente com os outros quatro padres da Vitória, S. Nicolau e Sé constituímos naquela área uma unidade pascoral, um trabalho pioneiro, um trabalho social naquela artéria da cidade, na linha da promoção social.

Como é que foi a fundação da Associação 'Pelo Prazer de Viver', em Mozelos, na década de 70?
Complicado… Éramos três jovens padres na altura e o projecto não foi bem aceite. Era uma espécie de caça às bruxas. O projecto englobava Mozelos, S. Paio de Oleiros e Lourosa. Foi um momento muito duro, numa zona fechada e com algum revolucionarismo. Já lá estou há 30 anos.

Mais tarde, veio para a Tenda do Encontro...
Esta associação existe antes da 'Pelo Prazer de Viver'. Quando assumi este projecto foi com a intenção de responder a necessidades de carácter nacional e internacional. Para isso, enviámos dois jovens para Moçambique como voluntários, na área da intervenção social, entregues à Diocese, ambos por dois anos. Um deles ficou bastante envolvido com aquele trabalho e esteve lá durante 19 anos.

E a nível nacional?
Começámos por dar apoio aos ex-reclusos que não tinham família e às mulheres vítimas de prostituição, em Grijó. Mais tarde, começámos a ter solicitações para acolher crianças sem familiares e os pedidos foram crescendo e fomos dando resposta a essas solicitações. Sempre tive o sonho de um espaço com um terreno e aqui estamos há sete anos. Além das crianças, dispomos do apoio psico-social e o departamento da saúde um dia por semana, medicinas alternativas, por exemplo. Todas as semanas, abordamos um tema da saúde pública.

Existe ainda um espaço espiritual na Tenda do Encontro...
Sim, um espaço de silêncio, oração, formação bíblica ou baptismo espiritual.

Vivem aqui cerca de 30 crianças e jovens. Vão à escola, levam uma vida normal, à imagem do que se verifica em diversas instituições?
Aqui é a casa de todas as crianças e jovens. Vão à escola, como qualquer outra criança ou jovem. Frequentam a escola de música de Perosinho, integram as actividades desportivas promovidas pela Junta de Freguesia, outros em clubes locais, como qualquer criança dos dias de hoje. Participam nos Jogos Juvenis do concelho, frequentavam o coro da Tuna Juvenil de Sermonde, entre outras actividades. Pretendemos que se desenvolvam, como as crianças que vivem com os pais.

Porquê Tenda do Encontro?
O logótipo desta casa é uma tenda, porque a ideia era mesmo que fosse uma tenda, pelo simbolismo humano e cristão que a tenda tem, ao nível da natureza, do escutismo, do acampamento. A tenda é um símbolo muito rico na Bíblia. A tenda como é uma canadiana tem três ângulos, o primeiro ângulo é o encontro das crianças consigo próprias, para que aprendam a ganhar a auto-estima, a confiança, o segundo é o encontro com os outros, a socialização com os outros, no último ângulo o encontro com a natureza. No centro da tenda está Deus, quem promove estes encontros

As crianças reagem bem à entrada na instituição?
Algumas não, mas as que mais tempo demoram são as que mais se apegam a nós. As crianças que aqui vivem acolhem-nos muito bem. Muitos, assim que chegam, vão ver os peixes, os animais e em poucos minutos estão a brincar com os já residentes. Ficam felizes, porque encontram aqui aquilo que não tinham em casa.

Conseguem ter sucesso escolar?
Depende muito. Há alguns que pura e simplesmente não aprendem, há os que têm apoio escolar e outros que nem à escola iam, daí o insucesso escolar. Vêm da rua... Outros adaptam-se muito bem. À parte disso, as tarefas são divididas e todas as semanas reunimos à noite, com vista a avaliar o trabalho da semana. A nossa vida na Tenda do Encontro é uma família.

Existem casos em que são entregues aos pais.
Infelizmente. Não concordo que sejam e tenho situações de grande tristeza com as minhas crianças, quando voltam para a casa dos pais. Não é que não gostem dos seus progenitores, porque gostam, mas porque gostam da tranquilidade desta casa e entendem que esta é a casa deles. O tribunal, antes de deliberar, deveria sentar-se numa mesa redonda com as instituições, pais e assistentes sociais da Segurança Social. Assim, é que se resolvem os problemas, com um estudo profundo, nunca os pais deveriam reaver os filhos só porque são pais.

A Tenda tem um projecto para a construção de um lar da terceira idade?
É um sonho e uma necessidade. Não há espaço idêntico nesta área do concelho. Pretendemos construí-lo para que os idosos possam conviver com a crianças e vice-versa, conviver e criar laços de amizade.

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PADRE BERNARDINO
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