
Breve historial da Banda de Música de São Mamede de Ribatua
A Banda dos Bombeiros Voluntários de S. Mamede de Ribatua há mais de duzentos anos que obtém o estatuto de colectividade com actividade ininterrupta, animando romarias e festas populares. É a filarmónica mais antiga de Portugal (Bicentenária 1799-1999).
É de realçar o entusiasmo e dedicação destes artistas, que percorriam distâncias consideráveis, sem qualquer tipo de meio de transporte, por vezes em caminhos empedrados e poeirentos que até feriam os pés, para irem oferecer, de boa vontade, toda a sua disponibilidade para cumprirem o serviço para que eram solicitados pelos responsáveis das romarias. Conta-se também que todos os instrumentos de maior porte e o respectivo material necessário para as suas actuações eram transportados por animais de carga, nomeadamente cavalos e burros.
Nas deslocações para o Nordeste, o atalho pelo caminho da Amêda era inevitável, atravessando de seguida o rio Tua em diversas navegações, poupando desta forma alguns quilómetros de viagem e “sacrifício”. Nesse tempo, cada músico andava com a sua própria roupa, pois a farda era adorno que não se utilizava, talvez devido aos escassos recursos financeiros da época. Mas, todos os músicos usavam uma peça de vestuário em comum que era o chapéu.
Certo dia, El-Rei D. Luís foi recebido e homenageado na cidade de Vila Real, onde decorreu um desfile de bandas em sua honra.
Todos os músicos da Banda trataram de pôr em prática o seu habitual capricho e usaram especialmente, calças brancas, casaco azul-marinho e um chapéu preto de aba larga, virado para cima no lado esquerdo. D. Luís, empoleirado no seu palanque, ao ver a Banda a desfilar com o seu abastado perfil, com aprumo militar, executando de forma soberba, pergunta aos seus acompanhantes que banda era aquela, mas ninguém lhe soube responder.
O Rei arranjou imediatamente uma solução: De seguida e com enorme entusiasmo, D. Luís, grita: "Viva a Banda dos chapéus"! A partir desse dia, a Banda ficou baptizada com esse nome e manteve-o durante longos anos. Mais tarde, quando o maioral de S. Mamede ofereceu farda aos músicos, o uso dos chapéus continuou em vigor como também um símbolo formado por um clarinete e um violino no respectivo chapéu.
Como se verifica na fotografia em baixo, do ano de 1916, a Banda designava-se de Filarmónica de S. Mamede de Ribatua e pela documentação encontrada nos arquivos da Banda, crê-se que esse nome venha já da sua fundação tendo-se mantido até à data da sua filiação na Associação dos Bombeiros Voluntários de S. Mamede de Ribatua, em 1934.
Em 15 de Maio de 1934, filia-se na Associação dos Bombeiros. As direcções reúnem e decidem vários pontos em comum, de onde se destacam a prestação de auxílio mútuo, o uso do nome e o uniforme dos Bombeiros, com responsabilidade material independente. Surge assim a designação de 'Banda dos Bombeiros Voluntários de S. Mamede de Ribatua'.
No célebre dia 14 de Janeiro de 1977, elegeu-se uma nova direcção, presidida pelo Eng. Orlando Gaspar que deu novo fôlego à Banda, decidiu dar arranque e deitar mãos à obra para a ideia da quase impossível edificação do que iria ser o Auditório. O Auditório, ainda com acabamentos adiados para outra oportunidade financeira futura, projectados pelo engenheiro para oferecer todas as condições acústicas para o desempenho desta actividade, entrou em funcionamento no início do ano de 1979. "Assim, nasce em Trás-os-Montes o Primeiro Auditório Musical"!
No dia vinte de Agosto de 1983, a Banda desloca-se então até à freguesia de Carção no Concelho de Vimioso. Já próximo do destino e depois de ter ultrapassado uma zona de declive acentuado, o autocarro que transportava a Banda despenhou-se na ponte provisória de Santulhão, no rio Sabor. Depois de tanto desespero vivido pela entreajuda, os ferimentos, alguns de gravidade, foram abundantes.
Julgando-se toda a gente a salvo, alguém dá pela falta de Jaime Pinto. Era forte e de estatura elevada. Talvez por isso e por ir sentado normalmente atrás do condutor, a sua vida parou naquele momento! Em poucos meses, todos os prejuízos foram remediados e no ano seguinte a Banda estava de “cara lavada”, com fardas e instrumentos novos, para levar a sua arte a qualquer parte, mas de espírito muito ressentido e condolente pelo desaparecimento de um colega!
A Banda tem participado em diversos festivais, nomeadamente: o festival de bandas da RTP (Sol de Verão), da EDP em 1984 na cidade de Lamego e do INATEL em 1988 na cidade de Coimbra, representando o distrito de Vila Real. A sua actividade tem incidido principalmente em todo o interior norte do país, onde actuou ao longo dos tempos, em inúmeras localidades.
Mas, é de salientar as esplendorosas actuações que efectuou em Espanha, nas Astúrias, numa comunidade de emigrantes portugueses, trabalhadores nas minas de carvão, em 1988 e noutras zonas de Portugal, nomeadamente, nas principais cidades, como Lisboa, Amadora, Sintra, Coimbra, Porto, Matosinhos, Viana do Castelo, Beja e muitas mais...
Sendo um dos principais ex-libris culturais do distrito de Vila Real, é sem dúvida a embaixatriz do concelho de Alijó. Como reconhecimento do seu mérito, a Banda recebeu, em 25 de Abril de 1984, a Medalha de Prata de Mérito Municipal, culminando com o ano de 1996 em que lhe foi atribuída a Medalha de Ouro, que é um motivo de orgulho e satisfação para todos os músicos e habitantes de S. Mamede!
"Duzentos anos são motivo de grande festa"
Com o apoio financeiro e logístico da Câmara Municipal de Alijó e da Junta de Freguesia de S. Mamede de Ribatua, organizou-se uma semana cultural, nunca verificada nesta localidade, na última semana do mês de Agosto, a coincidir e a culminar com a romaria anual do primeiro domingo de Setembro de 1999.
Foram figura de cartaz, o Rancho Folclórico de Carlão, a Banda de Música de Carlão, a Banda de Música da Portela, a Banda de Música de Nogueira, culminando no dia quatro de Setembro, num Sábado, com a inauguração de um “Relevo Escultórico à Banda”, do escultor filho da terra Laureano Ribatua. À noite, com toda a pompa e circunstância, realizou-se um concerto memorável para todos os Ribatuenses e os demais milhares de visitantes aquando desta efeméride, pela Banda da Força Aérea Portuguesa, que levou ao rubro todos quantos estiveram presentes, pela sua maravilhosa actuação.
Há muito que se pensava efectuar a gravação dum CD através da compilação das melhores obras tocadas no momento, com o intuito de alargar os horizontes da Banda e também conseguir introduzir algum dinheiro em caixa para instrumental. Assim, a gravação, efectuou-se com êxito em Setembro de 2001 no Auditório, que, oferece condições excelentes para o facto, como também para exposições e outros eventos do género.
José Coelho nasceu em S. Mamede de Ribatua, teve a sua formação musical nesta banda onde tocou clarinete, sendo actualmente maestro da Banda dos Bombeiros voluntários de S. Mamede de Ribatua. Em Agosto de 2003 foi formada a Orquestra Ligeira da Banda dos Bombeiros Voluntários de S. Mamede de Ribatua, por iniciativa da comissão de festas da freguesia, com o intuito de alargar dinamizar e engrandecer o seu programa.
É constituída por cerca de 20 elementos sendo todos componentes da banda. Tal foi o seu sucesso que as actuações sucedem-se. A Banda é constituída por cerca de 55 elementos Não é excessivo salientar que todos estes músicos que compõem a Banda, apesar de terem formação académica diversificada, desde o simples trabalhador rural aos bacharéis e licenciados nas diversas actividades, têm todos em comum a dedicação e o amor pela música.
S. Mamede de Ribatua, não há dúvidas que foi abençoada por Deus, dando às suas gentes sensibilidade, dom para a música e facilidades no seu desempenho, tal como diz um adágio antigo, "em S. Mamede, até as pedras da rua sabem tocar Música"!
Pelas palavras do prestigiado historiador, José Hermano Saraiva, proferidas no programa da RTP (Horizontes da Memória), em Outubro de 1999, inteiramente dedicado ao Douro e às suas gentes e com especial destaque da nossa Banda, esta é sem sombra de dúvidas, uma das mais antigas do país e talvez mesmo a mais antiga em actividade ininterrupta. Todos nós estamos orgulhosos desta Banda que já comemorou duzentos anos de existência, sendo sem dúvida alguma um enorme tesouro cultural da nossa região e até do país.
Assim, é dever de nós todos, preservá-la sempre que seja possível, pelo menos por mais duzentos anos!!!
(excerto do historial da Banda)
Como um Regimento, S. Mamede marcha ao som da Música.
Se esta se calasse, S. Mamede parava!!!
(Adriano Guedes)
