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"Autarcas devem ser sensibilizados para os problemas da alimentação"
Apenas 4,5 por cento dos municípios integram nos seus quadros um nutricionista, realidade preocupante que contribui para números assustadores. Estima-se que 1,5 milhões de portugueses sofram de obesidade e quatro milhões de excesso de peso. Estudos demonstram que "em 2025 metade da população será obesa". Faltam políticas preventivas e a inevitabilidade da cura retira do erário público 235 milhões de euros. Perante este quadro negro, surge o projecto 'SOS Alimentação Saudável', um verdadeiro grito de alerta… "Tem-se verificado muitos avanços na área da alimentação e da nutrição. No entanto, ainda há um longo caminho a percorrer", avisam as nutricionistas Joana Gonçalves e Sara Teixeira.
Um grupo de nutricionistas está a desenvolver o programa 'SOS Alimentação Saudável', que visa sensibilizar e educar a população para esta temática, através de diversas actividades que visam a educação, saúde, higiene e segurança alimentares, bem como a sua implementação nas instituições.
Este projecto prevê auditorias higio-sanitárias, sessões de higiene e segurança alimentar para os manipuladores de alimentos, sessões de educação alimentar, rastreios, elaboração de ementas ajustadas às condições das instituições e adaptadas ao grupo-alvo.
Em entrevista ao Ciberjunta, Joana Gonçalves e Sara Teixeira, nutricionistas que lideram o projecto, destacam o papel que as autarquias podem desempenhar no combate a uma epidemia que alastra em Portugal, também por culpa de políticas erradas ou por ausência de qualquer política.
Em que consiste este 'SOS Alimentação Saudável'?
O projecto inclui um conjunto de actividades desde a nutrição clínica e tratamento de patologias, elaboração de ementas ajustadas a diferentes grupos-alvo, sessões de formação destinadas a manipuladores de alimentos, auditorias higio-sanitárias, sessões de educação alimentar para a população em geral, rastreios de peso, entre outras.
Qual o objectivo?
A promoção a saúde e bem-estar das pessoas, apelando para a importância de uma alimentação completa, variada e equilibrada. Pretendemos sensibilizar a população para os problemas e doenças deste século, estimulando a adopção de estilos de vida saudáveis.
Qual a receptividade do Poder Local para as questões da saúde alimentar?
O Poder Local pode constituir um importante veículo de ligação entre os profissionais de saúde e a população. Estudos indicam que, dos 308 municípios de Portugal Continental e Ilhas, apenas 14 têm nutricionistas o que se traduz numa percentagem mínima. Noutros municípios verifica-se que apesar de terem preocupações a nível alimentar acabam por recorrer muitas vezes a profissionais que não têm conhecimentos necessários e adequados para responder às necessidades nutricionais da população.
Subsiste uma falta de sensibilidade dos autarcas para este problema?
É necessário alertar os responsáveis para a importância de recorrerem a nutricionistas que estão habilitados para desenvolver actividades na sua autarquia de uma forma coerente respeitando as regras que regem a alimentação saudável.
Que análise fazem à realidade da educação alimentar nas instituições públicas?
Cada vez mais se tem verificado uma maior procura de técnicos superiores de saúde da área da nutrição por parte das instituições. Esta pretensão advém do facto de haver uma crescente preocupação em colmatar possíveis falhas institucionais a nível nutricional e higio-sanitário.
Mas é preciso chegar mais além…
Este interesse continua a ser insuficiente, face aos constantes estímulos negativos que invadem a nossa sociedade. O seu combate passa por uma educação ou reeducação alimentar de forma a desenvolver atitudes positivas e mudanças que podem ser difíceis no início mas que se tornam bem sucedidas se estimuladas de forma continuada e coerente entre os indivíduos.
É possível alterar hábitos nefastos de alimentação que estão impregnados nas sociedades?
A forma como cada um se alimenta reflecte a forma como se relaciona com os outros e a cultura a que pertence. A mudança de hábitos não se pode centrar apenas no indivíduo, mas na comunidade. Na educação alimentar, nunca se deve dissociar a teoria da prática, procurando sempre envolver filhos, pais e avós. E, muitas vezes, a lacuna está aí.
Que actividades propõem às Juntas de Freguesia, para combater os efeitos da falta de educação alimentar?
Propomos várias actividades que abrangem diferentes áreas da nutrição, tais como: Clínica (tratamento de patologias, aconselhamento e elaboração de planos alimentares ajustados às necessidades de cada indivíduo), Educação Alimentar (realização de palestras, rastreios e campanhas), Investigação (levantamento de hábitos alimentares da população e de receitas gastronómicas tradicionais de forma a recuperar a dieta mediterrânica e a prestigiar a gastronomia local), Restauração colectiva (planeamento e coordenação de serviços de nutrição, elaboração de ementas, análise do processamento e qualidade dos produtos e supervisão das condições sanitárias das instituições).
E como analisam a realidade no campo da alimentação e quais os seus efeitos mais negativos?
Tem-se verificado muitos avanços na área da alimentação e da nutrição. No entanto, ainda há um longo caminho a percorrer. Portugal tem hábitos alimentares ligados à dieta mediterrânica que é vista como protectora de diversas patologias. No entanto, esses padrões alimentares têm vindo a ser alterados e cada vez mais se pratica uma alimentação desajustada e desequilibrada.
A luta contra a obesidade terá de partir de projectos como este?
A obesidade e as doenças cardiovasculares são apenas os exemplos mais comuns das doenças que podem ser consequência directa da dieta que praticamos. Estima-se que 1,5 milhões de portugueses sofram de obesidade e quatro milhões de excesso de peso.
Investir na prevenção permitirá poupar na cura…
Segundo dados do Instituto Nacional de Saúde, os gastos com a obesidade em Portugal atingem os 235 milhões de euros, dados que se mostram bastante preocupantes quando se tem verificado um aumento bastante significativo desta epidemia, prevendo-se que em 2025 metade da população seja obesa. Com estes valores alarmantes, uma atitude preventiva é sempre a melhor solução e é na prevenção que estamos a apostar com este projecto.
© Ciberjunta
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